segunda-feira, 11 de maio de 2026

Da Farofa à Voz de Prisão: Um Almoço de Família no Rio de Janeiro

Há alguns anos, dizer que trabalhava no Governo do Estado do Rio de Janeiro rendia, no máximo, uma piada cansada sobre café, carimbo e ar-condicionado quebrado.

O sujeito chegava num almoço de família, alguém perguntava “e aí, trabalhando onde?”, e vinha aquele sorriso enviesado: 
“Servidor público? Vida boa, hein…”

Era o velho folclore nacional do funcionário que “não trabalha”.

O Rio conseguiu piorar isso.

Hoje, dependendo da mesa, você não é mais visto como preguiçoso. É visto como cúmplice.

Outro dia, num almoço de Dia das Mães, ouvi a sentença sem anestesia:
“Quem trabalha nesse governo atual ou é miliciano ou é conivente com milícia.”

A frase caiu entre o arroz, a farofa e o silêncio constrangedor típico das famílias brasileiras quando alguém ultrapassa a fronteira entre opinião e acusação moral.

Perguntei, tentando salvar o humor:
“Mas espera aí… achei que a gente fosse do Comando Vermelho.”

Ninguém riu.

Talvez porque, naquela mesa, o humor já tivesse sido substituído por outra coisa: a necessidade moderna de apontar culpados.

Foi então que o filho do cidadão, recém-empossado juiz, ainda com aquele brilho de solenidade recém-saída da cerimônia, resolveu entrar na conversa com a gravidade de quem acredita estar presidindo sessão do Supremo até na sobremesa.

Levantou da cadeira, dedo em riste, e disparou:
“Vou chamar a polícia pra lhe prender!”

Por um instante, achei que fosse brincadeira.

Não era.

O rapaz realmente acreditava estar exercendo algum tipo de autoridade moral ali entre a travessa de maionese e o pudim.

A República brasileira talvez seja o único lugar do mundo onde um almoço de família pode escalar de farofa para crise institucional em menos de três minutos.

Fiquei olhando aquela cena curiosa.

De um lado, um servidor público tentando explicar que trabalhar no Estado não transforma ninguém automaticamente em criminoso.

Do outro, cidadãos que passaram a enxergar qualquer funcionário estatal como integrante de uma organização clandestina.

E, no centro da mesa, um jovem magistrado recém-chegado ao serviço público acreditando que autoridade é volume de voz.

O Rio produz dessas ironias.

O sujeito passa em concurso, toma posse, jura defender a Constituição na terça e, no domingo seguinte, já quer enquadrar parente em almoço familiar por desacato imaginário.

Talvez seja efeito colateral do país.

Aqui, todo mundo anda armado de alguma coisa:
uns com fuzil,
outros com cargo,
outros com rede social,
outros com superioridade moral.

A arma muda.
A vontade de esmagar o outro continua igual.

O mais curioso é que muita gente que aponta o dedo para “o servidor do Estado” não faz ideia de quem mantém o mínimo de funcionamento da máquina pública enquanto governos entram e saem como técnicos de time em crise.

Porque governo passa.

O servidor fica.

É o sujeito que passa o dia fazendo empenho, conferindo processo, respondendo auditoria, montando termo de referência, tentando impedir contrato irregular e sobrevivendo a sistemas que caem mais do que internet de bairro nos anos 90.

Mas, no imaginário das redes sociais, não existe nuance.

Existe apenas o tribunal permanente da indignação.

O algoritmo odeia complexidade.

Ele prefere caricaturas.

Então o servidor público do Rio virou uma entidade híbrida:
metade fantasma,
metade vilão.

Se trabalha no Estado e não aparece, “não faz nada”.
Se aparece, “tem esquema”.
Se defende a instituição, “é cúmplice”.
Se critica, “ficou anos mamando”.

É impossível vencer.

Talvez porque o Rio tenha chegado num estágio raro da vida pública:
o colapso absoluto da confiança.

Ninguém acredita em ninguém.

Nem no político.
Nem na polícia.
Nem na imprensa.
Nem na Justiça.
Nem no servidor.
Nem no cidadão.

Sobrou apenas a suspeita.

E ela se espalha como infiltração em prédio antigo do Centro.

Lenta.
Persistente.
Destruindo tudo por dentro.

O mais triste é perceber que desapareceu a capacidade de distinguir indivíduo de instituição.

O cidadão comum já não acredita que exista gente honesta trabalhando dentro do Estado.

E parte do próprio Estado parece ter desaprendido que autoridade sem equilíbrio vira apenas arrogância de terno.

No fim, ninguém chamou a polícia.

A sobremesa chegou.

E o Brasil seguiu funcionando exatamente como funciona há décadas:
com pessoas que se odeiam politicamente dividindo a mesma lasanha de domingo.

Enquanto isso, na segunda-feira de manhã, milhões de servidores voltaram aos seus postos invisíveis.

Uns honestos.
Outros nem tanto.
Como em qualquer lugar habitado por seres humanos.

Mas todos carregando, junto do crachá, uma condenação informal:
a de precisar justificar diariamente que ainda não enlouqueceram junto com o país.

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