Há alguns anos, dizer que trabalhava no Governo do Estado do Rio de Janeiro rendia, no máximo, uma piada cansada sobre café, carimbo e ar-condicionado quebrado.
Era o velho folclore nacional do funcionário que “não trabalha”.
O Rio conseguiu piorar isso.
Hoje, dependendo da mesa, você não é mais visto como preguiçoso. É visto como cúmplice.
A frase caiu entre o arroz, a farofa e o silêncio constrangedor típico das famílias brasileiras quando alguém ultrapassa a fronteira entre opinião e acusação moral.
Ninguém riu.
Talvez porque, naquela mesa, o humor já tivesse sido substituído por outra coisa: a necessidade moderna de apontar culpados.
Foi então que o filho do cidadão, recém-empossado juiz, ainda com aquele brilho de solenidade recém-saída da cerimônia, resolveu entrar na conversa com a gravidade de quem acredita estar presidindo sessão do Supremo até na sobremesa.
Por um instante, achei que fosse brincadeira.
Não era.
O rapaz realmente acreditava estar exercendo algum tipo de autoridade moral ali entre a travessa de maionese e o pudim.
A República brasileira talvez seja o único lugar do mundo onde um almoço de família pode escalar de farofa para crise institucional em menos de três minutos.
Fiquei olhando aquela cena curiosa.
De um lado, um servidor público tentando explicar que trabalhar no Estado não transforma ninguém automaticamente em criminoso.
Do outro, cidadãos que passaram a enxergar qualquer funcionário estatal como integrante de uma organização clandestina.
E, no centro da mesa, um jovem magistrado recém-chegado ao serviço público acreditando que autoridade é volume de voz.
O Rio produz dessas ironias.
O sujeito passa em concurso, toma posse, jura defender a Constituição na terça e, no domingo seguinte, já quer enquadrar parente em almoço familiar por desacato imaginário.
Talvez seja efeito colateral do país.
O mais curioso é que muita gente que aponta o dedo para “o servidor do Estado” não faz ideia de quem mantém o mínimo de funcionamento da máquina pública enquanto governos entram e saem como técnicos de time em crise.
Porque governo passa.
O servidor fica.
É o sujeito que passa o dia fazendo empenho, conferindo processo, respondendo auditoria, montando termo de referência, tentando impedir contrato irregular e sobrevivendo a sistemas que caem mais do que internet de bairro nos anos 90.
Mas, no imaginário das redes sociais, não existe nuance.
Existe apenas o tribunal permanente da indignação.
O algoritmo odeia complexidade.
Ele prefere caricaturas.
É impossível vencer.
Ninguém acredita em ninguém.
Sobrou apenas a suspeita.
E ela se espalha como infiltração em prédio antigo do Centro.
O mais triste é perceber que desapareceu a capacidade de distinguir indivíduo de instituição.
O cidadão comum já não acredita que exista gente honesta trabalhando dentro do Estado.
E parte do próprio Estado parece ter desaprendido que autoridade sem equilíbrio vira apenas arrogância de terno.
No fim, ninguém chamou a polícia.
A sobremesa chegou.
Enquanto isso, na segunda-feira de manhã, milhões de servidores voltaram aos seus postos invisíveis.
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