O texto do jornalista Pedro Burgos no Co.Inteligência parte de uma observação aparentemente banal, o incômodo crescente com “texto com cara de IA”, mas toca num nervo muito mais profundo do que a simples discussão sobre tecnologia.
Porque a verdade é que as pessoas não estão irritadas apenas com o ChatGPT, Claude ou Gemini.
Elas estão irritadas com a sensação de que algo que antes exigia anos de formação, repertório e prática virou commodity em menos de três anos.
E talvez a escrita profissional seja o melhor exemplo disso.
Durante muito tempo, escrever bem não era apenas uma habilidade. Era um mecanismo de poder.
No ambiente corporativo, quem dominava o idioma dos memorandos, dos relatórios e das apresentações executivas tinha vantagem competitiva. No serviço público, então, isso sempre foi ainda mais evidente. Existe toda uma liturgia da escrita institucional. O despacho correto. A fundamentação correta. A forma correta de dizer algo simples da maneira mais formal possível.
Quem sabe navegar nesse idioma consegue circular melhor dentro das estruturas.
Quem não sabe, fica para trás.
A inteligência artificial entrou exatamente nesse ponto.
E isso explica boa parte da reação emocional que estamos vendo.
Curiosamente, muita gente trata a “linguagem de IA” como se ela tivesse destruído uma era dourada da autenticidade textual. Como se antes das LLMs todos escrevessem como Rubem Braga, Elio Gaspari ou Machado de Assis.
Mas não era isso que acontecia.
O mundo corporativo já falava um idioma artificial muito antes da IA generativa existir.
As empresas já eram povoadas por frases vazias sobre “sinergia”, “mindset”, “stakeholders”, “alinhamento estratégico” e “jornada de transformação”. O LinkedIn já parecia um universo paralelo onde todo café virava uma lição de liderança. O setor público já vivia cercado de juridiquês, formalismos e construções tão engessadas que muitas vezes pareciam produzidas por um algoritmo de 1998.
A IA não inventou a artificialidade da linguagem profissional.
Ela apenas democratizou a capacidade de reproduzi-la.
E talvez seja justamente isso que esteja incomodando tanta gente.
Porque existe um componente de status nessa discussão.
Durante décadas, escrever um bom parecer, um relatório convincente, um artigo técnico organizado ou até um simples e-mail institucional exigia um capital invisível: repertório, leitura, convivência profissional, prática constante e, muitas vezes, pertencimento social.
Agora, um estagiário consegue gerar em segundos um texto estruturalmente melhor do que o que muitos gestores produziam sozinhos.
Claro que isso não significa que a IA substituiu inteligência, experiência ou pensamento crítico. Muito menos significa que todo texto produzido por IA é bom.
Quem lê bastante percebe rapidamente os padrões.
Existe, sim, um “cheiro de IA”.
Toda linguagem profissional desenvolve seus próprios vícios.
A diferença é que, agora, a IA escancarou isso.
Ela transformou em produto algo que antes parecia quase artesanal.
E isso mexe diretamente com profissões baseadas em produção intelectual.
Advogados, jornalistas, publicitários, analistas, consultores, redatores, servidores públicos, professores. Todos perceberam, de alguma forma, que parte do valor percebido do próprio trabalho estava associado não apenas ao conteúdo, mas à dificuldade de produzir aquele formato.
Quando a dificuldade diminui, o valor simbólico também muda.
Talvez seja por isso que o debate sobre IA frequentemente fique tão emocional tão rápido.
Porque ele raramente é apenas técnico.
E existe também um desconforto silencioso: perceber que muitos textos considerados “profissionais” já eram altamente padronizados muito antes da IA aparecer.
No setor público isso é particularmente interessante.
A administração pública brasileira foi construída em cima da padronização documental. Modelos, minutas, fórmulas, expressões consagradas, citações normativas e estruturas repetidas fazem parte do próprio funcionamento institucional. Em muitos órgãos, escrever “bem” significa dominar convenções específicas muito mais do que necessariamente comunicar melhor.
A IA se encaixa nisso de maneira assustadoramente eficiente.
Ela produz com enorme competência exatamente o tipo de texto que os ambientes burocráticos aprenderam a valorizar.
Só que isso cria um novo desafio.
Se qualquer pessoa consegue gerar um texto formalmente aceitável, então o diferencial deixa de ser a capacidade de “soar técnico”.
O diferencial passa a ser pensamento.
Talvez estejamos entrando numa era em que escrever bonito perde importância relativa diante de pensar bem.
E isso pode ser desconfortável para muita gente.
Porque pensar continua difícil.
É aí que talvez esteja a fronteira real.
Não entre “texto humano” e “texto de IA”.
Mas entre quem apenas reproduz linguagem e quem efetivamente produz entendimento.
A IA provavelmente continuará melhorando até o ponto em que será quase impossível distinguir a origem de muitos textos.
Mas talvez isso importe menos do que imaginamos.
Porque o verdadeiro problema nunca foi o estilo.
Sempre foi o conteúdo vazio.
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