O Governador interino em exercício, oriundo do Poder Judiciário, parece ter desenvolvido uma forma peculiar de se comunicar com a sociedade: por meio de vazamentos seletivos, distribuídos a conta-gotas.
Não é algo pontual. O expediente já foi utilizado, por exemplo, na antecipação de exonerações que só seriam oficialmente publicadas no dia seguinte no Diário Oficial do Estado. Antes disso, no entanto, a informação já circulava — convenientemente — entre jornalistas ligados ao principal grupo de mídia do país.
Não se trata de transparência. Trata-se de narrativa.
A lógica é simples e eficaz: cria-se, previamente, um ambiente de expectativa e indignação. Planta-se a ideia de que há uma grande “limpeza” em curso, como se o Estado do Rio de Janeiro estivesse sendo libertado de uma suposta quadrilha que teria se apropriado da máquina pública para saquear cofres já combalidos.
O enredo é conhecido. E, como todo bom enredo, precisa de vilões.
Desta vez, os escolhidos são os chamados servidores extraquadro e aqueles ocupantes de cargos em comissão. A narrativa tenta vendê-los como símbolos de desperdício e privilégio. O que não se diz — ou se omite deliberadamente — é que, em muitos casos, são esses mesmos servidores que sustentam o funcionamento cotidiano de setores inteiros da administração pública.
São eles que fazem a máquina girar quando o discurso já foi embora.
O capítulo mais recente dessa estratégia veio com a circulação de uma planilha apócrifa contendo dados de vencimentos de servidores. A informação, é verdade, é pública. Sempre foi. Mas a forma como foi organizada, destacada e divulgada revela menos compromisso com a transparência e mais com a construção de um efeito político.
Transformar dados públicos em instrumento de distorção não é esclarecimento. É manipulação.
Uma vez lançado o dado — ou melhor, vazada a planilha — o restante do roteiro se desenrola quase automaticamente.
Basta destacar meia dúzia de valores mais altos, preferencialmente fora de contexto, e pronto: está formada a percepção de que o Estado do Rio de Janeiro estaria pagando salários exorbitantes a seus servidores. A indignação vem no pacote.
É uma operação simples, mas eficiente.
A técnica é conhecida: seleciona-se o excepcional e apresenta-se como regra. Um ou outro valor fora da curva passa a representar, no imaginário coletivo, a totalidade da folha de pagamento. A exceção vira padrão. O recorte vira realidade.
E, com isso, constrói-se uma narrativa confortável: a de que o problema fiscal do Estado estaria, essencialmente, nos salários dos servidores.
Mas essa é uma explicação fácil demais para um problema complexo demais.
Porque ela ignora — ou deliberadamente evita — a pergunta mais básica de qualquer análise séria: qual é a distribuição desses valores?
Não se discute quantos servidores recebem aqueles valores destacados. Não se mostra onde está concentrada a massa salarial. Não se fala em mediana, nem em dispersão, nem em proporção.
Fica-se apenas com o número que causa choque.
E o choque, nesse caso, cumpre uma função clara: deslocar o debate.
Ao invés de discutir estrutura de gasto, prioridades orçamentárias ou eficiência administrativa, reduz-se tudo a uma imagem simplificada — e altamente distorcida — de privilégios generalizados.
Há ainda um detalhe que, curiosamente, não aparece nos vazamentos nem nas manchetes: o que esses valores representam na vida real.
Porque, ao contrário do que se tenta sugerir, uma parcela significativa desses vencimentos simplesmente não garante sequer condições básicas de subsistência digna, especialmente quando se considera o custo de vida do Estado do Rio de Janeiro.
O Estado, por exemplo, não paga vale-transporte a grande parte desses servidores. Em muitos órgãos, também não há vale-alimentação. O que aparece na planilha é, muitas vezes, o que existe. E só.
Diante disso, a própria organização do trabalho acaba se ajustando à precariedade. Regimes de home office ou escalas diferenciadas não são concessões generosas — são, em muitos casos, condições mínimas de viabilidade. Sem isso, o custo de simplesmente trabalhar seria maior do que o próprio rendimento.
Ainda assim, o discurso que ecoa é outro.
Fala-se em “fantasmas”, em “inchaço”, em “excessos”. Termos fortes, repetidos à exaustão, mas que pouco dialogam com a realidade concreta de quem está na ponta mantendo estruturas inteiras funcionando.
Diante desse cenário, a pergunta deixa de ser retórica e passa a ser metodológica: o que, afinal, essa planilha realmente mostra?
Porque, até aqui, o que se viu foi uma disputa de versões. Mas opinião não resolve essa tensão.
Dado resolve.
E, curiosamente, o próprio instrumento utilizado para inflamar o debate é também aquele que permite esclarecê-lo.
A planilha está aí. Os números estão postos.
O que se impõe, portanto, é uma mudança de postura: sair do recorte e olhar o conjunto.
Antes de qualquer conclusão apressada, é preciso fazer o mínimo: entender o que está sendo analisado.
A planilha que circula não é um estudo consolidado. É um recorte bruto de dados administrativos. E, como toda base de dados, exige leitura cuidadosa.
O primeiro ponto é o próprio conceito de “Total de Vantagens”. O nome induz ao erro. Não se trata necessariamente de um extra, mas, em muitos casos, de parcelas que compõem a própria remuneração do servidor naquele mês.
O segundo problema está na forma de apresentação. Não há contexto, segmentação ou distribuição. Apenas números alinhados, favorecendo a comparação entre extremos.
É uma armadilha visual.
Porque o leitor é levado a procurar os maiores valores e ignorar o que realmente importa: onde está a maioria.
Quando se reorganizam os dados em faixas, o cenário muda.
A concentração está na base. Em valores próximos de R$ 1.600. O chamado puxapiso.
GRÁFICO 1 — Distribuição dos vencimentos por faixa (Histograma)
Ao agrupar os vencimentos por faixas, o que se observa é uma concentração expressiva nos níveis mais baixos. A curva não é equilibrada. Ela é assimétrica. Concentra-se na base e se afina rapidamente à medida que os valores aumentam.
Os maiores salários existem, mas são minoria estatística.
GRÁFICO 2 — Dispersão dos valores / Boxplot (outliers)
A média, puxada pelos poucos valores elevados, engana. A mediana revela: a maior parte dos servidores está muito distante dos números que geraram indignação.
TABELA 1 — Distribuição dos servidores por faixa salarial
Os números falam por si. Mais de 44% dos servidores recebem até R$ 5.000. Quase 82% estão abaixo de R$ 10.000.
No outro extremo, aqueles que ultrapassam os R$ 20.000 representam apenas 1,32% da base.
É essa proporção que raramente aparece no debate público.
Porque ela desmonta, de forma simples e objetiva, a ideia de que os altos vencimentos seriam regra. Eles não são. São exceção — estatisticamente irrelevante quando comparados ao conjunto.
Quando se observa a distribuição completa, a percepção muda.
E, mais uma vez, o que parecia um escândalo generalizado se revela como um recorte seletivo de uma realidade muito mais ampla — e muito menos conveniente para quem precisa de manchete.
É justamente essa diferença que raramente aparece no debate público. Porque a média impressiona. A distribuição explica.
Quando se olha a planilha inteira, o escândalo desaparece.
E é nesse ponto que os números deixam de ser abstração e ganham peso real.
O puxa piso não é conceito técnico. É realidade concreta.
São vencimentos que, em muitos casos, não sustentam uma vida digna. Sem vale-transporte, sem alimentação, sem complementos.
Trabalhar, nessas condições, exige adaptação. E não privilégio.
Os mesmos servidores que aparecem como alvo são, frequentemente, os que sustentam a operação diária da máquina pública.
Mas, ao retirar o contexto e manter apenas o número, transforma-se o servidor em estatística. A estatística em manchete. E a manchete em acusação.
Quando o método entra, o ruído sai.
Organizar os dados, observar a distribuição — nada além do básico. E, ainda assim, suficiente para desmontar a narrativa inicial.
O problema não está nos dados. Está na forma como eles foram utilizados.
Ao transformar uma base bruta em instrumento político, optou-se pelo impacto em vez da compreensão.
Os dados estavam todos lá desde o início.
O que faltava não era acesso.
Era disposição para olhar além do recorte.
*Como este artigo foi construído
Há um ponto que merece ser explicitado.
Este artigo não nasce de impressão, nem de recorte oportunista. Ele é resultado de tratamento de dados.
A base utilizada foi um arquivo PDF bruto contendo registros da folha de pagamento do Estado. A partir desse material, foram aplicadas técnicas de extração de texto — com uso de ferramentas como PyPDF2 — e tratamento via expressões regulares (Regex), convertendo dados originalmente não estruturados em uma base analisável de 13.780 registros.
A partir daí, o que se fez foi o básico — mas o básico que raramente aparece no debate público.

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