Entre exonerações aqui e acolá, uma chamava especial atenção: a da Diretora-Presidente do Instituto de Segurança Pública.
Mas antes de avançar, cabe uma breve pausa — não por capricho, mas por necessidade — para contextualizar o que é, afinal, o tal ISP.
Autarquia do Estado do Rio de Janeiro, criada pela Lei nº 3.329, de 28 de dezembro de 1999, o Instituto de Segurança Pública é, ao menos em sua descrição oficial, um órgão dedicado à produção e análise de dados sobre segurança pública, contribuindo para a formulação de políticas públicas mais eficazes. Há 25 anos cumpre esse papel, com maior ou menor protagonismo, a depender dos ventos políticos de cada época.
Na prática, porém, trata-se de uma estrutura diminuta. Um órgão pequeno, técnico, de orçamento modesto — inferior a R$ 50 milhões anuais — e distante, ao menos em tese, dos grandes centros de poder e das disputas mais ruidosas da máquina estadual.
E é justamente aí que reside a primeira inquietação: o que leva um governo interino, em meio a uma crise institucional de grandes proporções, a lançar mão de uma caneta tão célere sobre um órgão dessa natureza?
Para a substituição da Diretora-Presidente, a escolha recaiu sobre uma antiga Coordenadora de Estatística do próprio Instituto. Um nome que não chega exatamente como novidade, mas como retorno.
Segundo relatos que circulam nos bastidores — sempre mais eloquentes do que as versões oficiais —, sua saída, em 2021, se deu de forma ruidosa, já durante a gestão da mandatária recém-exonerada.
O detalhe, que poderia parecer meramente episódico, ganha contornos mais relevantes quando inserido no contexto atual: não se trata apenas de uma troca administrativa, mas de um movimento que resgata personagens e reabre capítulos que, ao que tudo indicava, já estavam encerrados.
E como se não bastasse a forma, também o conteúdo das escolhas suscita reflexão.
A análise do perfil técnico da nova dirigente revela uma trajetória sólida no campo acadêmico e na produção de conhecimento — com formação consistente, atuação em pesquisa, participação em estudos relevantes e contribuições no debate sobre segurança pública. Trata-se, sem dúvida, de alguém com domínio teórico e familiaridade com dados, metodologias e diagnósticos.
Mas é justamente aí que emerge um ponto sensível — e, para o momento institucional vivido, decisivo.
A condução de uma autarquia pública, ainda que de menor porte, exige mais do que capacidade analítica. Exige vivência administrativa concreta, experiência na gestão de pessoas, domínio de processos internos, enfrentamento cotidiano de restrições orçamentárias, articulação institucional e tomada de decisão sob pressão.
Exige, sobretudo, prática.
E não se trata aqui de desmerecer trajetórias acadêmicas — que são fundamentais —, mas de reconhecer que teoria e gestão não são equivalentes. Produzir diagnósticos não é o mesmo que gerir estruturas. Formular recomendações não é o mesmo que executar políticas.
Quando essa distinção é ignorada, corre-se o risco de substituir um problema inexistente por uma solução inadequada.
E, no contexto de uma suposta “faxina”, essa escolha ganha contornos ainda mais preocupantes.
Porque, ao mesmo tempo em que se afastam equipes experientes, com vivência prática acumulada, aposta-se em um perfil cuja principal força reside na análise — e não na execução.
O resultado pode ser paradoxal: em nome da eficiência, fragiliza-se justamente aquilo que sustenta o funcionamento cotidiano da máquina pública.
Com o passar dos dias, o tempo começava a pesar — não apenas no céu, mas no ambiente institucional. Tudo parecia, de alguma forma, mais cinzento.
As notícias, quase em sequência, iam compondo um retrato que dispensava maiores interpretações.
No dia 4 de abril, os primeiros sinais: dificuldades para montar equipe, resistência de nomes, incerteza quanto à duração do mandato. Dias depois, a sucessão indefinida, o STF adiando decisões e, em paralelo, o aumento da pressão por auditorias, cortes e revisões.
A palavra da vez passava a ser uma só: “faxina”.
E não qualquer faxina — uma que viesse acompanhada de “plenos poderes”.
Instalava-se, assim, uma narrativa perigosa: a de que toda a máquina pública estaria contaminada e, portanto, sujeita a intervenções amplas, rápidas e indistintas.
É nesse ambiente que a caneta começa a percorrer o Estado.
E ela não distingue.
Não separa o que deve ser corrigido daquilo que funciona. Não diferencia estruturas problemáticas de equipes técnicas que entregam resultado. Não individualiza. Apenas alcança.
O Instituto de Segurança Pública é um exemplo claro disso.
Não houve anúncio de irregularidades. Não houve diagnóstico público. Não houve justificativa concreta.
Houve, sim, uma decisão.
E decisões tomadas sob o rótulo genérico de uma “faxina” tendem a prescindir justamente daquilo que lhes daria legitimidade: o critério.
Ao nivelar tudo, transforma-se funcionamento em excesso. Confunde-se técnica com problema. E, no limite, substitui-se análise por conveniência.
No caso do ISP, essa escolha teve consequência direta.
Equipes inteiras que, ao longo de 2025, foram sendo formadas com critério, esforço e propósito. Profissionais que chegaram aos poucos, vindos de diferentes trajetórias, mas convergindo para a construção de um time coeso, técnico e altamente comprometido com entrega.
Um time que caminhava, sem exagero, para se tornar quase imbatível.
E que, ainda assim, foi varrido.
A comunicação final — simbólica em sua própria contradição — veio por meio da nossa querida Diretora, que, já exonerada, teve que tocar as trombetas do apocalipse. A mesma que brilhantemente exercia a substituição de outra competentíssima profissional em licença maternidade.
E é aqui que a questão deixa de ser apenas administrativa e se torna, inevitavelmente, moral.
Porque não se trata apenas de poder para exonerar. Trata-se da forma como esse poder é exercido.
E causa estranheza — para dizer o mínimo — que decisões dessa natureza partam de alguém cuja trajetória foi construída na magistratura. Um campo onde a prudência, a análise individualizada e o compromisso com a justiça não são opcionais, mas estruturantes.
O que se espera de quem julgou é, no mínimo, que saiba distinguir.
Quando isso não ocorre, o discurso da “faxina” perde sua força moral.
Porque não há legitimidade em limpar sem critério.
Não há justiça em decidir sem distinguir.
E não há coerência em, sob o argumento de corrigir distorções, produzir outras — talvez ainda mais graves.
No fim, a pergunta permanece.
E talvez seja a única que realmente importa:
isso foi, de fato, uma correção de rumo — ou apenas o exercício apressado de um poder que, por natureza, deveria ser transitório?
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