segunda-feira, 18 de maio de 2026

Entre fantasmas e prompts

Fui varrido pela vassoura biônica que anda voando pelas sedes administrativas dos órgãos do governo do estado do Rio de Janeiro.

Uma tecnologia revolucionária, aparentemente equipada com sensores avançados para caça de fantasmas, milicianos e integrantes do Comando Vermelho. Até hoje não descobri exatamente em qual categoria fui enquadrado, mas o fato é que fui oficialmente removido do tabuleiro.

E curioso como certas demissões modernas não vêm acompanhadas de silêncio. Vêm acompanhadas de narrativas.

Quem trabalha no setor público já percebeu isso faz tempo. Dependendo do humor político da semana, você deixa de ser servidor, técnico ou gestor e vira personagem de filme ruim. Fantasma. Parasita. Miliciano. Infiltrado. Um NPC da máquina estatal.

No início aquilo machuca.

Depois cansa.

E finalmente liberta.

Porque quando arrancam de você a obrigação de participar do teatro, sobra uma coisa rara na vida adulta: tempo para olhar os projetos que ficaram décadas na fila.

Projetos que a rotina empurrou para depois.

Projetos que o excesso de trabalho matou antes mesmo de nascer.

Projetos que sempre moravam naquela frase clássica:
“Quando eu tiver tempo, eu faço.”

Pois bem.

O tempo chegou.

E um desses projetos finalmente saiu do papel.

Sou casado com uma nutricionista maravilhosa e, há muito tempo, eu tinha vontade de construir um sistema voltado para o consultório dela. Não um software genérico cheio de módulos inúteis, dashboards coloridos e relatórios que ninguém lê.

Queria algo focado no que realmente importa:
o Processo de Cuidado em Nutrição.
O famoso PCN.

A parte humana da nutrição.

O acompanhamento.
A evolução.
Os registros.
O cuidado organizado de forma inteligente.

Só existe um pequeno detalhe nessa história:
eu não sou desenvolvedor de software.

Nunca fui.

Sou apenas um curioso profissional.
Um acumulador de ideias.
Um sujeito que passou anos observando problemas e pensando:
“isso podia funcionar melhor.”

E agora apareceu uma variável nova no mundo:
IA com agentes.

Pela primeira vez na vida, alguém que não programa profissionalmente consegue conversar com máquinas de um jeito menos hostil. Você descreve. Ajusta. Corrige. Debate arquitetura. Quebra tarefas. Refaz fluxo. Testa hipóteses.

Mas existe uma fantasia circulando por aí de que basta escrever um prompt mágico e pronto:
o sistema nasce sozinho.

Não nasce.

Cada pequena etapa concluída parece uma vitória de Copa do Mundo.

A tela que finalmente salva corretamente.
O botão que deixa de quebrar.
A sincronização que para de enlouquecer.
A regra de negócio que finalmente respeita a lógica do atendimento real.

E junto com cada vitória vem uma nova lista de defeitos invisíveis que ninguém tinha percebido antes.

Porque software é isso.

Você fecha uma porta e descobre outras cinco abertas.

A IA acelera absurdamente o processo.

Mas ela não substitui clareza mental.

Não substitui visão de produto.

Não substitui entendimento do problema.

Muito menos substitui paciência.

Talvez essa seja a maior mentira dessa nova corrida tecnológica:
a ideia de que construir ficou fácil.

Não ficou.

Ficou possível.

E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.

Hoje entendo que meu papel nesse projeto não é “programar”.

É traduzir experiência humana em lógica.

É pegar anos observando problemas reais e tentar transformar isso em fluxo, tela, regra, automação e organização.

Errando bastante no caminho.

Corrigindo mais ainda.

E avançando um pequeno bloco por vez.

No fundo, talvez seja isso que a IA esteja democratizando:
não a perfeição técnica,
mas a coragem de finalmente tirar ideias da gaveta.

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