Fui varrido pela vassoura biônica que anda voando pelas sedes administrativas dos órgãos do governo do estado do Rio de Janeiro.
Uma tecnologia revolucionária, aparentemente equipada com sensores avançados para caça de fantasmas, milicianos e integrantes do Comando Vermelho. Até hoje não descobri exatamente em qual categoria fui enquadrado, mas o fato é que fui oficialmente removido do tabuleiro.
E curioso como certas demissões modernas não vêm acompanhadas de silêncio. Vêm acompanhadas de narrativas.
Quem trabalha no setor público já percebeu isso faz tempo. Dependendo do humor político da semana, você deixa de ser servidor, técnico ou gestor e vira personagem de filme ruim. Fantasma. Parasita. Miliciano. Infiltrado. Um NPC da máquina estatal.
No início aquilo machuca.
Depois cansa.
E finalmente liberta.
Porque quando arrancam de você a obrigação de participar do teatro, sobra uma coisa rara na vida adulta: tempo para olhar os projetos que ficaram décadas na fila.
Projetos que a rotina empurrou para depois.
Projetos que o excesso de trabalho matou antes mesmo de nascer.
Pois bem.
O tempo chegou.
E um desses projetos finalmente saiu do papel.
Sou casado com uma nutricionista maravilhosa e, há muito tempo, eu tinha vontade de construir um sistema voltado para o consultório dela. Não um software genérico cheio de módulos inúteis, dashboards coloridos e relatórios que ninguém lê.
A parte humana da nutrição.
Nunca fui.
Pela primeira vez na vida, alguém que não programa profissionalmente consegue conversar com máquinas de um jeito menos hostil. Você descreve. Ajusta. Corrige. Debate arquitetura. Quebra tarefas. Refaz fluxo. Testa hipóteses.
Não nasce.
Cada pequena etapa concluída parece uma vitória de Copa do Mundo.
E junto com cada vitória vem uma nova lista de defeitos invisíveis que ninguém tinha percebido antes.
Porque software é isso.
Você fecha uma porta e descobre outras cinco abertas.
A IA acelera absurdamente o processo.
Mas ela não substitui clareza mental.
Não substitui visão de produto.
Não substitui entendimento do problema.
Muito menos substitui paciência.
Não ficou.
Ficou possível.
E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
Hoje entendo que meu papel nesse projeto não é “programar”.
É traduzir experiência humana em lógica.
É pegar anos observando problemas reais e tentar transformar isso em fluxo, tela, regra, automação e organização.
Errando bastante no caminho.
Corrigindo mais ainda.
E avançando um pequeno bloco por vez.
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