sexta-feira, 8 de maio de 2026

Olho para o terminal do Codex e, confesso, quase me emociono.

Minha primeira experiência com código foi lá por 1995.

A escola resolveu criar um curso de programação. Naquela época, veja só, já diziam que desenvolvedor de software seria “a profissão do futuro”.

Prometeram que, ao final do curso, estaríamos aptos a criar o sistema da própria escola. Quem sabe até remunerados.

Eu nem tinha computador em casa.

Pedi para fazer o curso com uma esperança secreta: talvez minha mãe se compadecesse e comprasse um PC para mim.

Meus amigos tinham computador. Eu aproveitava cada ida à casa deles para jogar Elifoot.

Quem lembra?

Minha mãe me matriculou no curso.

Mas não comprou o computador.

E lá fui eu.

Turbo Pascal. Tela preta. Linha de comando. “Escreve isso aqui, menino, para mudar a cor da letra para azul.”

Que saco.

Não havia internet. Mas havia 12 computadores ligados em rede.

E havia Doom.

Que época boa.

Pouco tempo depois, pedi para sair. Achei que minha mãe estava gastando dinheiro à toa. Eu não entendia aquelas linhas de código. E, pior, não queria entender.

Sempre gostei de tecnologia, mas fugia do código.

Quando comecei a estagiar, vi minha primeira planilha. Simples. Até que eu vi que alguns colegas mexiam com “macro”.

Macro?

O sujeito apertava um botão e tudo desaparecia. Apertava outro e tudo voltava.

Aquilo era mágica.

“Me ensina?”

“Claro. Senta aqui.”

Quando vi que tinha código no meio, fugi de novo.

Fiquei nas fórmulas, nas análises na marra, na tela, quebrando a cabeça, gastando horas no que hoje talvez se resolva em minutos.

Anos depois, trabalhando com gestão, ouvi um grande consultor chamar de “planilheiro” quem ficava enfurnado automatizando planilha.

“Esse tipo de consultor eu não quero aqui”, ele dizia.

Na época, achei exagero.

Hoje, acho que ele tinha razão em parte.

Porque o valor nunca esteve apenas na fórmula, na macro ou na linha de código.

O valor está em entender o problema.

A inteligência artificial aprendeu as fórmulas, os códigos, os fóruns de Excel, as dúvidas antigas, os erros repetidos, as soluções improvisadas.

Aquela pergunta que você fazia num fórum torcendo para alguém responder antes da reunião com o chefe?

A IA engoliu tudo.

Hoje, se você domina o negócio e sabe conversar minimamente com uma IA, ela te entrega a fórmula.

Se der erro, você copia o erro e cola.

Pode ser uma vez. Cinco. Dez.

Uma hora, destrava.

E é por isso que Excel continua sendo uma excelente porta de entrada.

Você decompõe o problema. Vê o passo a passo. Erra na tela. Corrige. Entende.

A diferença é que agora você pode perguntar sem medo de cara feia.

Sem ouvir “já usou a barra de pesquisa?”

Sem depender da boa vontade de alguém no fórum.

A resposta pode vir errada no começo.

Tudo bem.

Refaça a pergunta. Melhore o contexto. Explique o problema de novo.

E, por favor, esqueça essa obsessão por prompt pronto.

O melhor prompt ainda é pensar com clareza.

Percorra seu próprio caminho.

Comece pequeno.

Use.

Teste.

Quebre.

Pergunte.

Reformule.

Porque talvez a grande revolução não seja a IA programar por você.

Talvez seja ela finalmente permitir que quem entende do negócio consiga transformar esse conhecimento em ferramenta útil.



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