De: Exservidor@gov
Para: Presidente@gov
Estimada Presidente,
Não tivemos a chance de nos encontrar.
Não houve uma reunião, um aperto de mão, um “vamos conversar”. Houve apenas o ato, seco, administrativo, definitivo. E, com ele, a ausência de algo simples: a possibilidade de mostrar o que foi feito.
Escrevo não por inconformismo, mas por necessidade de registro. Porque o trabalho existiu, mesmo que não tenha sido visto.
Há uma peculiaridade na vida pública que talvez só quem a vive entenda: nós raramente somos apenas nós.
E, no meio disso tudo, o indivíduo se dilui.
Fui exonerado sem ter a oportunidade de dizer uma palavra à senhora. Sem apresentar resultados, sem contextualizar escolhas, sem sequer oferecer um panorama do que estava em andamento.
Não é uma crítica pessoal.
É um retrato.
Na política, os movimentos são rápidos demais para explicações demoradas. Misturam-se trajetórias com disputas, histórias com alinhamentos, entregas com narrativas.
E, no fim, somos o quê?
Peças.
Mas não peças nobres.
Peões.
E, às vezes, nem isso.
Peças de um tabuleiro de xadrez jogado por pombos, onde não importa a estratégia, porque o jogo não é exatamente sobre jogar.
É sobre ocupar.
É sobre derrubar.
É sobre seguir adiante como se nada tivesse sido construído antes.
Ainda assim, o trabalho fica.
Não escrevo para pedir revisão. Nem para buscar retorno.
Escrevo porque há algo que não pode ser exonerado com um ato: a consciência do que foi feito com seriedade.
E isso, Presidente, segue comigo.
Talvez, em algum momento, a senhora venha a conhecer, não a mim, mas ao que foi deixado.
Se isso acontecer, já terá valido.
Se não, ainda assim foi necessário.
Na política, aprendemos cedo: somos transitórios.
Mas o impacto do que fazemos, esse, quando bem feito, insiste em permanecer.
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