terça-feira, 21 de abril de 2026

O Dia em que Virei Peça Fora do Tabuleiro

De: Exservidor@gov

Para: Presidente@gov


Estimada Presidente,

Não tivemos a chance de nos encontrar.

Não houve uma reunião, um aperto de mão, um “vamos conversar”. Houve apenas o ato, seco, administrativo, definitivo. E, com ele, a ausência de algo simples: a possibilidade de mostrar o que foi feito.

Escrevo não por inconformismo, mas por necessidade de registro. Porque o trabalho existiu, mesmo que não tenha sido visto.

Há uma peculiaridade na vida pública que talvez só quem a vive entenda: nós raramente somos apenas nós.

Somos cargos.
Somos contextos.
Somos, muitas vezes, extensões de decisões que não tomamos.

E, no meio disso tudo, o indivíduo se dilui.

Fui exonerado sem ter a oportunidade de dizer uma palavra à senhora. Sem apresentar resultados, sem contextualizar escolhas, sem sequer oferecer um panorama do que estava em andamento.

Não é uma crítica pessoal.

É um retrato.

Na política, os movimentos são rápidos demais para explicações demoradas. Misturam-se trajetórias com disputas, histórias com alinhamentos, entregas com narrativas.

E, no fim, somos o quê?

Peças.

Mas não peças nobres.

Peões.

E, às vezes, nem isso.

Peças de um tabuleiro de xadrez jogado por pombos, onde não importa a estratégia, porque o jogo não é exatamente sobre jogar.

É sobre ocupar.

É sobre derrubar.

É sobre seguir adiante como se nada tivesse sido construído antes.

Ainda assim, o trabalho fica.

Ficam os processos estruturados.
Ficam as decisões técnicas que ninguém vê, mas que sustentam o que aparece depois.
Fica o esforço silencioso de quem tentou fazer direito, mesmo sabendo que o “direito” nem sempre sobrevive à troca de comando.

Não escrevo para pedir revisão. Nem para buscar retorno.

Escrevo porque há algo que não pode ser exonerado com um ato: a consciência do que foi feito com seriedade.

E isso, Presidente, segue comigo.

Talvez, em algum momento, a senhora venha a conhecer, não a mim, mas ao que foi deixado.

Se isso acontecer, já terá valido.

Se não, ainda assim foi necessário.

Na política, aprendemos cedo: somos transitórios.

Mas o impacto do que fazemos, esse, quando bem feito, insiste em permanecer.

Atenciosamente,
Ex-Servidor

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O fim do “juridiquês exclusivo”: por que a IA incomoda tanto no setor público

O texto do jornalista Pedro Burgos no Co.Inteligência parte de uma observação aparentemente banal, o incômodo crescente com “texto com cara...